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| Divulgação |
Faça
como um bolonhês
Bolonha não tem o
poderio industrial de Turim, a riqueza de Milão, a história de Roma nem está
impregnada de arte como Florença. O cálcio dos rossablus não impressiona. Mas a
capital da Emilia-Romana tem a universidade mais antiga do mundo, fundada em 1088
(onde Umberto Eco é o titular de semiótica), rica gastronomia e... mortadela.
Aliás, a mortadela é a única com selo de Indicazione Geografica Tipica, o IGP,
conferido pela Comunidade Europeia.
A mortadela está de tal forma identificada com a
cidade que por ali é chamada apenas de "la bologna". E está por todos
os cantos. Nos pequenos restaurantes e rotisserias na via Independenza é
frequente encontrar peças inteiras de mortadela em exposição. Classicamente
cilíndrica, pesa 12 kg e fica pendurada no alto como um desses sacos de treinos
para boxeadores. Veem-se também peças pequenas, de 1 a 2 quilos das marcas Due Torri
ou da famosa Pasquini & Brusiani (você pode experimentá-la no antepasto da
Osteria Bottega via Santa Caterina, 51).
Mas, se quiser comer uma boa mortadela, não perca
tempo, vá direto à via Caprarie, número 1 (uma das laterais da bela Piazza
Maggiore). É ali que está a Tamburini Ântica Salsamenteria Bolognesi (pode
chamá-la apenas de Tamburini, como fazem os bolonheses), templo da mortadela,
louvado nos guias locais e no Gambero Rosso.
Com pistache - Reconhecida com o selo DOP, é feita com
100% de paleta suína desossada manualmente. A gordura (parte branca) vem do
pescoço do animal. Leva pistache de Bronte (na Sicília) e é levemente picante. Foto: Felipe Rau/AE
A Tamburini é uma rotisseria caprichada (e vale a
visita), mas deixe-a para depois. Primeiro, prefira uma discreta porta lateral
que leva a um ambiente pequeno com apenas quatro picole tavole de madeira. É
ali que se pode provar o que é vendido na rotisseria.
Fino trato - Delicada na cor e no sabor, esta italiana
leva carne suína e bovina, toucinho, lascas de pistache,especiarias e
condimentos naturais, além de conservantes e antioxidantes. Foto: Felipe Rau/AE
A mortadela vem em fatias finíssimas, rosadas e
brilhantes. É suave, untuosa sem ser gordurosa - a untuosidade torna o pão, seu
melhor companheiro, mais macio, menos seco, dispensando o uso da manteiga. O
sabor, levemente adocicado, é contrabalançado por parrudos grãos de
pimenta-do-reino.
A porção é generosa, servida numa tábua, e pode ser
acompanhada de magnífico parmegiano-regiano (cuja picância sutil se contrapõe à
doçura da mortadela) e de outras preciosidades da salumeria italiana, como o
prosciutto di San Daniele, o prosciutto di Modena, a sopressata veneta.
Quando perguntei sobre
outras variedades de mortadela para degustar: pistache, picles, peperoncino e
tartufo produzidas por algumas salumerias, como a famosa Falsineo, o ragazzo fez
cara feia e foi falar com il capo. Parecia que eu tinha dito que o
time de Parma (que concorre com Bolonha pela primazia na Emilia-Romana) era
melhor ou que prefiro presunto de Parma à mortadela bolonhesa. "Aqui em
Bolonha mortadela é de porco e basta. Aqui não se fazem essas coisas",
vociferou o chefe.
Pão, azeite e um pingo de aceto balsâmico - ou
apenas ele - sobre a mortadela são aceitos sem problemas. Mas nem experimente
outras combinações. E um último aviso: sim, para comer, retira-se a casca.
Ah, para beber, Lambrusco. Bem, confesso que havia
pensado em acompanhar a mortadela com um vinho tranquilo como um Dolcetto ou um
Bardolino, casamento clássico indicado pelo mestre Saul Galvão. Mas o garçom do
Tamburini sugeriu um Lambrusco di Sorbara.
Mais magra - Feita apenas com músculo e miúdos bovinos
e pimenta-do-reino, sem adição de gordura. Leva também conservantes. Foto: Felipe Rau/AE
Acostumado aos Lambruscos que aportam no Brasil,
insossos e malfeitos, quase ensaiei um Te Deum. Mas resolvi não contrariá-lo.
Aceitei o Lambrusco di Sorbara, que é produzido em doze comunas da província de
Modena. Cor rubi translúcido, era seco, tinha aromas de violetas, frutas
vermelhas e casca de mexerica. Na boca, corpo leve, fresco, acidez equilibrada.
Para completar, tinha boa perlagem. Está bem, uma boa pilsen, com amargor
acentuado para equilibrar a gordura e o adocicado da mortadela, também faz boa
parceria.
Por: Táki Cordás/ESPECIAL PARA O ESTADO
Fonte:
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos%20paladar,faca-como-um-bolonhes,4864,0.htm











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